Imagem capa - Coragem todos os dias. por Fabio Barella

Coragem todos os dias.


        

           

        As vezes precisamos de coragem pra progredir. É assim que pensamos na coragem, nós brancos, héteros, paulistanos, católicos, classes média. Somos a minoria no comando. Somos os donos do palanque e nele falamos em nome de “todos”. Porque achamos que sabemos tudo. Vimos nos livros, nas músicas do Chico, do Caetano e do Criollo, nos filmes Priscila a rainha do deserto ou em Girl que eu vi recentemente.

                Só que na realidade não chegamos nem perto. Coragem pra empreender, para falar umas verdades para o seu pai ou chefe ou para os dois como é no meu caso. Coragem para chegar naquela mina. Ah essas coragens. Tão pequenas.

                Vou te contar, meu querido. Essa coragem que você conhece não é única e nem é nada. “Ah! mais cada um sabe onde o calo aperta” Não é não queridão. Coragem é ser preto e sair pra rua sendo alvo oficial de todo tipo de preconceito. Do vizinho, da polícia do presidente.
                Coragem meu querido é você descobrir que é viado. Não é homossexual não, a sociedade não tem essa delicadeza. Você primeiro é viado e depois vai se informar assustado coagido num canto da sua casa quando de lá não é expulso antes mesmo de saber do que se passa. E só aí, você se torna homossexual. Aí você acorda, e vai pra rua, homossexual, mulher trans, mulher negra, homem trans, vai pra rua e é preciso ter uma coragem que você, branco, hétero, mediamente bem nascido como eu, não faz ideia como é ter.  Aquela coragem para levantar e falar em público daquele problema na reunião de condomínio é merda meu querido. O duro é dormir e acordar todos os dias sem saber de que lado vem a paulada. A piada é inocente, mas o currículo não passa, aqui não tem preconceito nem preto, é só uma coincidência.

                Enterro de anão você nunca viu, e currículo de travesti? Não aparece, meu querido. O travesti normalmente não sobrevive a escola ou é ejetado da família das formas mais terríveis e não sobram muitas opções quando se está tão exposto.

                Precisamos aprender a sintetizar um pouco mais. Perceber que há coragens que nascem do medo e da fome. Temos nós, brancos donos do palanque, parar de arrotar nossas pequenas derrotas e dar voz aos que estão sob verdadeira pressão. É hora de termos uma pouco mais de coragem de verdade e trabalhar para que o mundo seja menos perverso com as pessoas que não são brancas, cisgênero, paulistas e católica. 

                                                                                                                                                                         por FBarella